Uma nova forma de Amamentação chamada Peter Walker

Todas as grávidas se preocupam com a futura alimentação dos seus filhos. Seja porque reconhecem o valor da amamentação, seja porque elas próprias se debatem com a obesidade, seja porque razão for.

É instintivo desejarmos o melhor para aqueles que amamos. E, como tal, é intuitivo almejarmos oferecer-lhes a melhor alimentação possível.

No presente é com prazer que vejo a amamentação recuperar o seu lugar legítimo como a forma de melhor alimentar os nossos príncipes e princesas, sem sequer concorrente que se lhe chegue aos pés.

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Se como eu segue um ou muitos grupos de apoio à amamentação e esforça-se por oferecer o seu ouro liquido aos seus filhos, então permita-me confundi-lo com uma nova variável:

Há um segundo tipo de amamentação chamado Peter Walker.

Posso estar a criar uma metáfora, mas as minhas bases são bem científicas. Continue a ler se quer perceber melhor e, principalmente, se deseja mesmo oferecer o melhor ao seu bebé ou futuro filho.

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Perceba porque o toque amoroso é tão ou mais importante que a amamentação

São muitas, quase sem conta, as coisas que eu gostava de ter sabido ou conhecido quando fui mãe. No topo da lista encontra-se o trabalho de Peter Walker.

Gostava de ter sabido amamentar melhor. Gostava de ter estado emocional saudável quando ela nasceu. Gostava de ter sabido lidar e até ajudar a tratar o trauma da gravidez e nascimento com que ela veio ao mundo.

E nada disto precisava de ter sabido, se apenas tivesse conhecido o trabalho deste homem que hoje tanto admiro e recomendo.

Ainda na gravidez e até bem depois de nascer, a minha filha falhava em crescer. Por muito que eu me empenhasse na sua alimentação ela simplesmente ou não engordava ou não crescia.

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Com o tempo fui percebendo o que se passava. Conforme o percebia, escrevia e partilhava.

Mas a última peça do puzzle veio-me através dos cursos de Gordon Neufeld. Com ele percebi o que era o vínculo e qual a sua verdadeira importância na vida de um ser humano.

Com ele aprendi uma das verdades que mais me chocou em toda a vida: a primeira necessidade de qualquer individuo não é comer, beber ou ter abrigo. É o vínculo. É sentir-se amado.

O marasmo é a doença que um dia mais órfãos matou. Crianças cujas necessidades físicas estavam perfeitamente asseguradas, mas sem qualquer toque amoroso. A causa de morte, durante muito tempo desconhecida, tornou-se óbvia após as descobertas de Bowlby: o contacto físico, o toque amoroso, o vínculo ou apego.

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Conforme explorava estes princípios deparei-me com as experiências de Harlow realizadas em macacos. Apaixonada pelos animais como sou resisti muito a ver as imagens dos seus estudos. Mas quando finalmente o fiz o mundo caiu aos meus pés.

Os macaquinhos eram criados sem mãe e os substitutos eram simplesmente dois robôs quase inertes: um que fornecia continuamente leite mas absolutamente mais nada e outro que não dava qualquer alimento mas era peludo e aconchegante. Os macaquinhos preferiam sempre o segundo. Quando com fome dirigiam-se ao primeiro e alimentavam-se rapidamente, para logo se irem aconchegar no segundo.

Perante qualquer perigo corriam para o robot peludo e aconchegante. E só na sua ausência apresentavam as clássicas respostas ao stress: atacar, fugir ou paralisar.

Amamentar é importante. Mas há um segundo tipo de amamentação: o toque amoroso, a passagem do nosso amor pelos sentidos aos nossos filhos, principalmente pelo tato.

E isso é muito mais que massajar,

E nisso é perito Peter Walker.

Está grávida ou é recém mamã e quer oferecer o melhor alimento ao seu bebé?

Amamente e conheça o trabalho de Peter Walker!

 

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Simplesmente Escrever

Por vezes apetece-me escrever, mesmo sem saber o que dizer. Só escrever. Simplesmente escrever. Assim que carrego nas teclas do computador é como se algo se libertasse em mim. É como se eu descongelasse e voltasse a aquecer para a vida. É como se acordasse de um sonho mau e percebesse que estou segura.

Escrever aquece-me a alma e faz-me sentir viva. Mas por vezes nada tenho para dizer.

São dias como hoje, semanas como esta, meses como o último. Sinto o meu cérebro parado, sem querer pensar, sem querer raciocinar. Não o culpo, enquanto está congelado o corpo não tem que sentir o que dói de mais.

Em dias como este sinto-me prisioneira de um passado que me condicionou em demasia. Pergunto-me se alguma vez vou conseguir realmente funcionar.

Em dias como este nem fugir me apetece. Só não sentir, nada viver, simplesmente pastar.

Quando era criança desejava ser um gato. Via-os dormir, espreguiçar, dormitar mais um pouco, mudar de poiso e voltar a enrolar. Parecia-me tão simples a sua vida, tão fácil de existir, sem expectativas nem agendas, só descansar.

Em dias como hoje gostava de ser gato, só por um tempo, um momento.

Em dias como hoje quero ser vitima, pelo menos ao acordar. Estou farta de lutar.

Não quero reagir, não almejo melhorar, nada quero conquistar. Só não sentir. Simplesmente parar.

E escrevo, porque escrever limpa-me a alma. Porque escrever é viver um amor novo a cada palavra, linha ou paragrafo. Escrevo porque escrever me faz sentir a criança despreocupada que nunca fui.

A escrita é como um amante. Por vezes é tórrido e inebriante. Por vezes nada queremos com ele. E por vezes só desejamos um abraço quente, um colo carinhoso, um beijo na face.

Hoje fico-me pelo abraço.

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Os Pais e a Escola

Hoje quero vos falar de um assunto que incomoda muitos pais: a escola.

Seja no contexto de escolher a melhor escola para os filhos ou na questão de não se concordar com as atitudes ou métodos do professor, é um assunto que me é trazido por muitos progenitores.

Como falar com os docentes? Como mudar esta ou aquela atitude? Ou até “como trazer mais consciência para a escola da minha filha no que respeita à educação consciente?”

A minha resposta é: “Quem somos nós para querer mudar o outro?”

Respondem-me “sou mãe, sou pai, é meu direito exigir o melhor para o meu filho!”

A minha pergunta: “E como te tens saído com as tuas exigências? O que mudou?”

Geralmente a resposta é que o outro lado não estava recetivo à mudança e a situação piorou em vez de melhorar. Pois bem, eu também não estaria recetiva à mudança, desculpem-me a sinceridade.

Há um instinto em todos nós, primeiramente descrito por Otto Rank e popularizado por Gordon Neufeld que se chama “Contra Vontade”. E esse instinto serve para nos proteger da influência nefasta dos estranhos. Mas a forma como a natureza humana define “estranhos” é aqueles fora do nosso contexto de vínculos, aqueles com os quais não temos estabelecida uma relação de respeito e carinho. Só no contexto de um relacionamento saudável e bem estabelecido é que podemos influenciar ou sermos influenciados por alguém. E uma das características de um relacionamento bem estabelecido e saudável é a aceitação do outro.

Percebem agora o paradoxo? Se almejamos influenciar alguém ou até criar alguma mudança na sua forma de estar ou pensar precisamos antes de tudo de o aceitar tal como é. E aceitar alguém tal como é, com todas as suas virtudes e todos os seus defeitos, implica deixar cair a ideia de o mudar.

É um belo paradoxo em que tropeçamos constantemente e cuja falta de compreensão e entendimento nos coloca em constantes quimeras destinadas ao falhanço.

Não quero, com isto, dizer que temos que aceitar tudo tal como é e nunca almejar a mudança. Não quero, com isto, partilhar a ideia de que devemos baixar os braços e não lutar pelo que é melhor para os nossos filhos. Podemos e devemos fazê-lo. Mas de outra forma. Olhando para dentro. Realizando as nossas próprias escolhas. Assumindo o nosso papel de pais.

Procuras a escola ideal para os teus filhos? Ótimo, mesmo muito bom. Mas de onde vem esse teu desejo de encontrar a escola ideal? De uma sensação de responsabilização pelo bem estar dos teus descendentes e um acolher carinhoso dessa mesma responsabilidade? Ou de um medo de não seres um progenitor suficientemente bom e precisares de ajuda na criação do teu filho?

Se é o primeiro caso, então cedo percebes que não há soluções perfeitas e que vais sempre questionar a tua escolha sem que isso implique, no entanto, que a queres mudar. E certamente que a tua escolha imperfeita será mesmo a ideal.

Se é o segundo, então por muito perfeita que a escola seja, nunca será a ideal para o teu filho. Porque essa escola representará sempre uma fuga, um escape, uma tentativa tua de te afastares da dissonância, do desconforto e da constante incerteza que fazem parte de um Pai que sabe que o segredo da criação de um filho está em sermos a resposta para ele e não em encontrarmos as respostas certas. Porque estas simplesmente não existem.

Por isso, e em conclusão, se queres a melhor escola para os teus filhos foca-te nas pessoas, nos relacionamentos e na tua responsabilidade parental.

Em termos práticos, eis os meus conselhos: escolhe a escola pelas pessoas e não pela sua filosofia, currículo ou instalações. Sem dúvida que tudo isso é importante, mas secundário à importância do papel dos seres humanos responsáveis pelos nossos filhos.

E torna-te um membro ativo da escola. Não para tentar mudá-la mas para completares em casa as falhas que lá possam existir e criares um sentido de comunidade para os teus filhos. Valoriza aqueles que os educam. Acredita que eles dão o seu melhor todos os dias, porque na verdade todos o damos, com todas as nossas limitações e imperfeições. Colabora com a escola, cria um relacionamento com os seus membros e respeita o seu trabalho. Achas que o farias melhor? Talvez. Mas nunca o saberás e não o assumas assim tão rapidamente. Ser Pai dos filhos dos outros sempre foi muito mais fácil que o ser dos nossos, lembras-te? E fazer o trabalho dos outros também parece sempre muito mais fácil que realizar o nosso. Mas o que parece não é necessariamente verdade.

A escola perfeita para os teus filhos é aquela em que escolheres envolver-te e à qual estejas disposto a oferecer o teu tempo e colaboração. Se depois perceberes que existe uma verdadeira incompatibilidade entre ti e e essa escola, escolhe diferente. Simplesmente escolhe diferente, não responsabilizes os outros.

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Paremos de tentar mudar o mundo e ele será mudado. Porque só na imperfeição poderemos encontrar a verdadeira perfeição!

Procurava o meu valor nos olhos dos outros

Procurava o meu valor nos olhos dos outros. Se não estivesse lá eu não era nada e zero merecia. Procurava o meu valor nos olhos dos outros, sempre, a cada segundo, a cada instante, a cada respiração. Não tinha noção de que o fazia.

Mas os mesmos olhos que amam também são capazes de odiar e eu aprendi a ter medo de olhar.

Procurava o meu valor nos olhos dos outros, mas tinha medo de enxergar e descobrir que, afinal, era apenas uma fraude, nada valia, nada merecia.

Procurava o meu valor nos olhos dos outros e esqueci-me de me encontrar.

 

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A minha filha não é um projeto, é uma relação

Eis o que mais me tem custado a aprender nestes quase quatro anos de maternidade: a minha filha não é um projeto, é uma relação.

A minha filha não é um projeto de trabalho. A maternidade não é uma carreira profissional.

Então porque crio objetivos de curto e longo prazo? Então porque é que vivo cada momento, cada interação com ela, tendo por base o ser humano que gostava que ela fosse?

Porque estou equivocada na essência do que é ser mãe. A minha filha não é um projeto, é uma relação.

Imaginem se eu fosse amiga como muitas vezes sou mãe?! Agindo com base no que será melhor para a minha amiga no futuro em vez de me focar no que ela precisa no momento presente.

Imagine que é minha amiga e vem ter comigo porque está a precisar de desabafar, de falar mal do trabalho, do marido ou até queixar-se dos filhos. Qual a minha postura?

Escuto-a, valido-a, faço-a sentir-se compreendida. Dou-lhe um abraço, acompanho-a às compras, a tomar um chã, a beber um copo, a aproveitar um dia de praia, ou pura e simplesmente amparo o seu choro. Não fujo de si, não respondo ao pedido de ajuda com um “já és crescida, já devias ter mais responsabilidade e saber lidar com situações assim sozinha” ou com um “eu bem te disse que isto ia acontecer, mas tu não me quiseste escutar. Vou-te ajudar, mas que seja a última vez, pois já tens idade para saber fazer melhor”.

Não me parece que respondesse assim a uma amiga, nem me parece que tentasse resolver os seus problemas assumindo o controlo da vida dela. Seria ridículo pensar que uma amizade iria longe com tais comportamentos.

Mas é isso que fazemos com os filhos.

A diferença é que quando investimos na manutenção de uma amizade, investimos na qualidade da relação. Sabemos que uma amiga não quererá estar perto de nós ou escutar a nossa opinião se não sentir com toda a clareza que estamos do lado dela dê para onde der. E sabemos tudo isto de forma bastante instintiva.

Mas com os filhos fazemos diferente. Com os filhos queremos ensinar, queremos controlar, queremos preparar. E tudo isso são projetos, não relações.

Com os filhos, as nossas interações têm sempre em mente o futuro, a pessoa em que eles se vão tornar. Interagimos com eles tendo por base, consciente ou inconscientemente, a sua felicidade futura, a sua capacidade de se adaptarem ao mundo em geral e a um futuro trabalho em particular, os seus futuros resultados escolares. E tudo isso são projetos, em tudo iguais aos projetos de trabalho.

Com os filhos vivemos no futuro, traçamos objetivos e sacrificamos a relação presente em detrimento de desejados resultados vindouros.

Mas com os amigos vivemos no presente, não pensamos ensinar-lhes como viver a vida, apenas os queremos apoiar e ajudar a encontrarem o seu próprio caminho.

É claro que um filho não é o mesmo que um amigo. É claro que as responsabilidades são diferentes. Mas isso não significa que a nossa postura tenha que ser divergente. Bem pelo contrário.

Para mim, o papel de um pai e de uma mãe é orientar. A nossa função de pais é ajudar os nossos descendentes a navegar neste mundo por vezes tão paradoxal, a descobrirem quem são, quais as suas qualidades e defeitos e como os podem usar para viverem o mais felizes possível. Mas isso não é, nem de perto nem de longe, igual a partir do princípio que sabemos o que é melhor para eles e como atingir o resultado final. Os nossos filhos são pessoas, não projetos empresariais.

E esta é uma das lições que me tem sido mais difícil assimilar. O meu papel de mãe é perceber o que a minha filha precisa no momento presente como ser humano em evolução que é. Não o que eu acho que ela necessita hoje para ser o que eu sonho que ela seja amanhã. Os sonhos e as deduções de necessidades são minhas. A vida é dela.

A minha filha não é um projeto, é uma relação.

 

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O dia em que fiquei desempregada

Hoje vou falar de morte. Hoje soube do falecimento de um bebé de 3 dias e de um pai e avô de quase oitenta. Hoje acordei e enfrentei a realidade da nossa mortalidade.

Levantei-me e comecei a preparar-me para mais um dia de trabalho. E enquanto escovava os dentes pensava na dor daqueles que tinham perdido quem mais amavam, senti a minha mente a divagar, a querer fugir, a não querer ver o que é a maior separação de todas. E a mais cruel.

Apeteceu-me escrever, tinha que escrever, não conseguia continuar o meu dia sem escrever. Sentei-me na cama, ao lado da minha filha que ainda dormia, abri o computador e comecei a chorar.

Não, ainda não estou preparada para falar da maior separação de todas, da mais cruel realidade desta vida, mas percebi o que precisava de processar: a minha morte no dia em que fiquei desempregada.

Já muitas vezes escrevi sobre como a minha vida desmoronou quando a minha filha nasceu, já muitas vezes partilhei como foram difíceis os primeiros dois anos da sua existência, já varias vezes referenciei como senti que precisei de nascer de novo. Mas do que eu nunca falei foi do momento em que realmente morri: o dia em que fiquei desempregada.

Numa bela manhã de inverno, bem no inicio de um novo ano em que tinha entrado chorando na cama com a minha filha nos braços, como que prenuncio do que estava para vir, senti ficar sem chão e perder o pouco, muito pouco que ainda me fazia sentir valer algo neste mundo.

Não culpo ninguém, nem sequer a mim própria. Sei que estava longe, muito longe da profissional que podia ser. Sei que andava perdida, sem foco nem motivação, imersa numa dor que não percebia e nem compreendia o que fizera para merecer.

Será que eu era assim tão errada? Tão defeituosa? Tão desadequada? Que fizera eu de tão maléfico para merecer tudo o que estava a viver? Estas eram as perguntas que eu lançava a Deus, ao Universo, ao que quer que seja que existisse lá fora. E a resposta foi cruel: “Ups, não tinha reparado que ainda tens o teu emprego. Fora com ele.”

Sempre acreditei em segundas oportunidades, mas nesse frio dia de Janeiro aprendi que nem sempre elas existem. E morri. Morri porque fiquei sem chão e morri pela incompreensão.

E nesse dia renasci. Renasci porque percebi que ainda existia, apesar do tudo o que tinha perdido. Percebi que, no meio do rescaldo do que experienciei como um terramoto de escala máxima, eu ainda respirava. Percebi que ainda me erguia, magoada, cambaleante, com feridas que iam demorar anos a sarar, mas ainda estava erguida, tal como um edifício que se mantem em pé, réplica após réplica, mesmo que sem segurança para ser habitado.

De seguida veio a anestesia. Sentir era demasiado. Atendemos às necessidades imediatas, tratamos dos feridos, enterramos os mortos. E não sentimos, não podemos sentir, é premente sobreviver.

Mas quando a poeira começa a assentar e o fumo a desvanecer, então conseguimos ver o que realmente se perdeu e o que ainda se mantém de pé. E para minha surpresa ainda havia muito que não tinha desaparecido.

Pouco a pouco percebi os maravilhosos amigos e familiares com que tinha sido premiada. Nos olhos daqueles que me contatavam, que me visitavam, que me ofereciam apoio comecei a ver o meu valor.

Sim, porque só quando tudo cai e não existem mais mascaras para serem usadas, quando a nossa alma desnuda e desmaquilhada é tudo o que temos para mostrar, é que realmente percebemos quem nos quer bem e porquê: porque simplesmente existimos. E isso é suficiente.

 

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Prisioneiros da Imaturidade

“Todos envelhecemos, mas nem todos amadurecemos”[1]. Esta é, para mim, uma das frases de marca de Gordon Neufeld. Todos crescemos fisicamente, mas nem todos crescemos emocional e psicologicamente. E esta é uma realidade inquestionável dos dias de hoje.

A imaturidade é uma epidemia das sociedades contemporâneas e encontra-se de tal forma disseminada que nem nos apercebemos dela. Mais, algures no passado passamos a aceitá-la como a norma e até a valorizá-la. Tal como um dia escolhemos enaltecer a pele bronzeada ao sol, ignorando o aumento exponencial e relacional dos tumores cutâneos, na atualidade valorizamos as certezas absolutas e a ausência de medo, sem percebermos que tal só existe em mentes de pré-escolares e que nenhuma criança desta idade é capaz de viver como ser independente.

Mas tal como aconteceu com o tabaco, está na hora de acordar e perceber que o preço que pagamos por sermos “fixes” é demasiado alto e compromete não só a nossa própria integridade como o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. E os perigos provêm não só das nossas escolhas individuais, como do contexto social criado pelo conjunto de todos os indivíduos. O fumador passivo também morre de cancro do pulmão. Da mesma forma, a criança que cresce numa sociedade inacabada também é asfixiada pela imaturidade, vergada pelo seu peso.

Quase todos os dias ouvimos falar no aumento das depressões, suicídios e venda de medicação relacionada com doenças do foro psicológico. É já bastante claro que o sofrimento é uma constante da vida da maioria, da nossa própria existência. E por muito que lutemos por uma vida melhor, parece que nunca lá chegamos, que sempre falhamos o alvo, que algo nos foge pelos dedos sem percebermos bem o que é. Pelo menos é essa a minha experiência, pessoal e profissional, como ser humano que desespera na escuridão e farmacêutica que escuta os desabafos de quem avia mais uma receita de benzodiazepinas e/ou antidepressivos.

Existe toda uma indústria dedicada a promover o bem-estar psíquico e emocional, mas o que me parece que falta em demasia, senão até mesmo de todo, é uma compreensão real e profunda do que nos está a acontecer, do que começou a correr mal e se tornou num ciclo vicioso: todos envelhecemos, mas nem todos amadurecemos.

A natureza tem um plano para o nosso desenvolvimento. Há milhões de anos que os seres humanos se geram, nascem, crescem, envelhecem e morrem segundo um plano da natureza. Mas essa sabedoria, essa consciência não existe mais.

Se no plano físico tentamos combater o nosso amadurecimento natural com tudo o que temos e não temos, desde alimentação saudável e exercício físico até cirurgias plásticas e injeções de células estaminais, no plano psíquico e emocional já ganhamos essa guerra e deixamos de envelhecer.

Mas há um preço a pagar, um preço muito alto, e nem nos apercebemos que é esse custo a causa da maioria dos nossos sofrimentos. Não é suposto vivermos a idade adulta com a maturidade de uma criança. Mas é isso que está a acontecer. Todos nos revoltamos, e com toda a razão, contra a exploração do trabalho infantil. Todos percebemos que uma menina de 12 anos ainda não está preparada para assumir as responsabilidades da maternidade nem um rapaz de 15 pode ser um bom pai de família, promovendo o suporte económico e emocional inerente a tal responsabilidade. Mas é isso mesmo que acontece na atualidade. Chegamos à idade adulta, ao mundo do trabalho, à maternidade e paternidade com corpos fisicamente amadurecidos, mas maturidade emocional e psicológica de crianças em idade escolar, meninas e meninos que ainda precisam de brincar às casinhas e aos médicos e não governar casas e ser doutores ou engenheiros.

Assumimos responsabilidades de adultos com mentes de criança. E sofremos, e quebramos, e morremos a cada dia sem perceber porquê. Trocamos de emprego, desfazemos casamentos, vivemos para as férias e encharcamo-nos de medicamentos. E nunca percebemos que a única resposta é crescer, verdadeiramente crescer, amadurecer por dentro, pois só no verdadeiro amadurecimento psíquico e emocional a vida adulta se torna não só suportável como deveras prazerosa, independentemente dos desafios que nos são colocados a cada dia.

A natureza tem um plano para o nosso desenvolvimento. E embora esse plano exista não é inevitável. O amadurecimento físico não pode ser combatido, não é passível de ser realmente travado. Mas o desenvolvimento psíquico e emocional é bem mais fácil de ser interrompido. E é isso o que acontece na maioria dos casos. É essa a norma, de tal forma que um adulto física, psicológica e emocionalmente maduro é a exceção, e não a regra, na nossa sociedade moderna. E só ele possui as ferramentas para se sentir verdadeiramente feliz e realizado.

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[1] We all grow older mas we don´t all grow up

“The paradox of choice” no campo da Parentalidade

Barry Schwartz conclui a sua Ted Talk “The paradox of choice” afirmando que todos precisamos de uma espécie de aquário que limite as nossas escolhas, otimizando, assim, o nosso grau de satisfação perante elas e, consequentemente, a nossa felicidade geral.

Para mim, esta metáfora é particularmente importante quando pensamos no desenvolvimento das nossas crianças, na sua jornada a caminho da maturação e no nosso papel como pais durante essa caminhada.

Quando compreendemos que demasiadas possibilidades de escolha podem paralisar um adulto, é fácil imaginar a insegurança que podem trazer a uma criança. E o mundo atual presenteia os nossos filhos com uma multitude de opções, a cada dia e a cada esquina, quer queiramos quer não.

É, portante, premente criar um aquário para os nossos filhos se queremos que eles se desenvolvam de forma saudável.

Como? Confiando na natureza que nos dotou de comportamentos instintivos. O aquário é criado pelo nosso lado animal, que se move com base em instintos, e não pelo nosso racional. Bem, na verdade, perante o estado atual do exercício da parentalidade, resultante da falta de modelos geracionais, talvez o racional tenha um papel: o de nos ajudar a compreender e reaprender esses comportamentos instintivos.

Quando nascem os nossos filhos vêm já equipados com um “set de construção de aquário”: o vínculo.

Quando o vínculo entre pais e filhos ocorre de forma natural e saudável, os primeiros vão ser o ponto cardial que irá orientar os segundos, a sua estrela polar, o seu farol. Como tal, as únicas possibilidades de escolha verdadeiramente válidas para a mente das nossas crianças são as que provém dos pais, e tudo o que vem de fora é suscetível de despertar uma resistência natural.

Assim sendo, os seus valores serão os nossos, a sua individualidade será descoberta no nosso seio e a sua felicidade e autoestima dependerá do que vem de nós, e não da opinião da sociedade ou dos seus valores materiais.

Mas enquanto a sociedade industrializada nos oferecia cada vez mais opções de escolha, também nos levou para um caminho bem errado no que à educação dos nossos filhos diz respeito: o trilho que tem como premissa que a criação de um filho depende maioritariamente das escolhas que fazemos por eles e para eles, das técnicas que aplicamos, da descoberta de uma fórmula única e absolutamente correta.

Perdemos a noção de que muito mais importante do que o que fazemos é quem somos para os nossos filhos. Perdemos a compreensão que educar uma criança é, essencialmente, construir e cultivar uma relação com ela que constitua o seu porto seguro emociona. E, consequentemente, o seu aquário.

 

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Ser Mãe

Ser mãe é simplesmente ser. Ser mãe é não sabermos mais quem somos.

Ser mãe é amar mais do que tudo e perceber o sentido do mundo na profundeza de um olhar.

Ser mãe é morrer num grito sem voz “Quero a minha vida de volta!”

Ser mão é viver o paraíso e o inferno no mesmo momento.

É acreditar que nada somos e tudo precisamos de ser.

Ser mãe é o melhor do mundo. E o pior.

É descobrir a dádiva das cores. E a maldição de nada mais ser preto e branco.

Ser mãe é simplesmente ser. Bom, mau e todos os intermédios.

 

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